Saudade do tempo que tinha para escrever.
Em breve terei tempo novamente.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
cursos online para enem
Não trabalhei com nenhum desses sítios, nem vi os vídeos. Mas me pareceram interessantes.
Talvez sirva para alguém.
Cursos online para ENEM e vestibular
Talvez sirva para alguém.
Cursos online para ENEM e vestibular
VIDEO DE LITERATURA
INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS
http://www.youtube.com/watch?v=8jX9_SsPnoQ
INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS
INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS TIPOLOGIA E
GÊNEROS
A COMUNICAÇÃO
http://www.youtube.com/watch?v=AsQxI0bSCYg
SEGREDO PARA PASSAR EM CONCURSO
terça-feira, 6 de maio de 2014
MERECE SER LEMBRADO III -- SUGNA MURGA
SUGNA MURGA
Era uma vez um
imperador cognominado o “Imperador Branco”, pai de três filhas,
cada qual mais sedutora. Guardava-as, porém, num castelo de bronze,
com medo que os gênios as roubassem.
Tinha ele por vizinho
outro imperador, chamado “Imperador Vermelho”, pai de três
filhos também muito bonitos. João, o primogênito, de natureza
tímida e fraca, apaixonou-se pela mais velha das princesas, Ileana.
O segundo, Valdo mais valente e mais forte que João, amava a
princesa do meio, cujo nome era Diana. E o terceiro Sucna Murga, o
mais formoso e bravo dos irmãos, enamorara-se da princesinha mais
nova, chamada Mariana.
Um dia o príncipe João
pediu ao pai de Ileana que o deixasse ir passear com ela no jardim do
palácio. O imperador, temeroso dos gênios, negou a principio. Mas o
moço tanto pediu, tanto pediu, que ele afinal disse que sim.
Vocês não imaginam
que preciosidade de jardim era aquele! Um parque maravilhoso, cheio
de lindas flores e de árvores de mil qualidades, umas frutíferas,
outras apenas decorativas, outras copadas e altas, — só para
oferecerem no estio a sombra acolhedora dos seus ramos. Quantas vezes
descansei debaixo delas!
Vinha gente de todo o
mundo para admirar. Que jardim! Era tão grande, tão grande que mil
jardineiros não bastavam para o tratar convenientemente como o
imperador queria que ele fosse tratado.
Algum tempo Ileana e
João foram passeando alegremente de mãos dadas. Súbito, o príncipe
viu ao longe uma rosa muito bonita, e correu a apanhá-la,
abandonando a mão da sua querida.
Imediatamente surgiu no
céu uma nuvem escura, que veio descendo, descendo, descendo,
envolveu a princesa e a levou.
Tudo isto se deu num
abrir e fechar de olhos.
Quando o príncipe
voltou, sorridente, com a rosa na mão para a oferecer a Ileana,
debalde a procurou por toda parte. Desaparecera. Triste e vexado,
regressou sozinho ao palácio, e o imperador só faltou morrer de
desgosto ao saber o que tinha acontecido.
Algum tempo depois o
príncipe Valdo pediu o pai de Diana que a deixasse ir passear com
ele no jardim. Recordando-se do que sucedera á filha mais velha, ele
a princípio disse que não, porém, diante da porfiada insistência
do príncipe, cujo coração não se sentia disposta a conformar-se
com a recusa, acabou anuindo.
Grande foi o
contentamento da jovem quando se viu ao ar livre na companhia do seu
amado. Oh! Como o tempo voava! Iam passeando muito absorvidos um no
outro, quando de repente o príncipe viu uma linda flor num canteiro
distante, e foi colhê-la, abandonando por um momento a sua princesa.
Logo uma nuvem baixou
do céu, carregada e negra, e levou instantaneamente em seu bojo a
formosa Diana.
Por mais que o príncipe
depois a procurasse, não pode infelizmente encontrá-la. E de novo
no palácio do imperador houve lamentações e lágrimas.
Passados alguns dias,
Sucna Murga, o príncipe mais moço, rogou ao imperador que lhe
permitisse ir passear no jardim com a sua bem-amada, a princesinha
Mariana.
A começo, o imperador
não quis ouvi-lo.
— Não! O destino de
minhas duas filhas mais velhas ensinou-me a ter mais cuidado com a
terceira. Para minha eterna mágua,
basta que eu as tenha perdido a ambas.
Todavia, Sucna Murga
foi tão insistente, pediu tanto, implorou de tal forma, que o
imperador, afinal consentiu, embora com o coração oprimido e
angustiado.
Foram os dois para o
jardim e entretiveram-se longo tempo a cortar flores e arremessa-las
— quando, súbito, havendo-se ambos casualmente afastado um do
outro, desceu uma nuvem negra, faiscante, que envolveu a princesa e a
levou embora consigo.
Instantes depois, o
jovem buscou sua companheira e não a encontrou. Supôs, a princípio
que ela estivesse brincando de esconder, e andou-a procurando por
toda parte. Afinal, vendo que, sem dúvida, havia sido roubada pelos
gênios, não teve remédio senão contar o caso ao imperador.
Vocês agora imaginem,
se podem, a amargura que reinou, tanto naquele palácio como no do
imperador Vermelho. Ambos decretaram luto por dez anos, e foi
proibido que durante esse longo tempo qualquer pessoa tocasse música
ou se risse. Havia apenas tristeza e desolação nas ruas!
Passados, porém, três
meses e um dia, Sucna Murga e os irmãos resolveram a ir libertar as
princesas ao Reino dos Gênios do Ar.
Foi assim:
Uma tarde, Sucna Murga,
o mais novo dos três (que era, como já disse, o mais forte) matou
uma pulga. Vocês naturalmente não ignoram que as pulgas tinham
naquele tempo dez metros de altura, usavam sapatos de ferro pesando
centenas de toneladas, e davam cada pulo que chegavam às nuvens ou
atravessavam os mares. As viagens que hoje se fazem de aeroplanos,
faziam-se então a cavalo em pulgas domesticadas.
Ora, com os sapatos de
ferro da pulga mandou Sucna Murga fabricar uma corrente que chegasse
da terra ao céu, e propôs em seguida a seus irmãos:
— Vamos juntos
procurar as nossas princesas?
— Vamos.
Carregando então a
corrente às costas, Sucna Murga atravessou com eles todos os reinos
da terra, até chegar ao fim do mundo, onde o céu também acaba e é
tão baixo que quase se toca na crista dos montes.
Aí disse ao irmão
mais velho que atirasse uma ponta da corrente ao beiral do céu. o
irmão mais velho atirou, mas não com suficiente força para que ela
chegasse lá.
Convidou, em seguida, o
irmão do meio. O irmão do meio atirou e a corrente foi mais longe
do que tinha ido primeiro, mas não chegou ao beiral do céu.
Então Sucna Murga
pegou a corrente, arremessou-a com toda força e ela ficou presa, bem
presa em cima.
Depois de puxar e ver
que estava segura, pediu a João que subisse. João subiu até ao
meio, porém, quando olhou para baixo e quase não avistou os irmãos,
ficou trêmulo de pavor e desceu a toda pressa.
Valdo subiu até além
do meio, mas também não teve coragem de prosseguir. Desceu também.
Então Sucna Murga
abraçou-os e disse-lhes:
— Agora vou eu. Vocês
não saiam deste lugar. Esperem que eu agite a corrente. Será o
sinal de que matei os gênios e libertei nossas amadas.
Subiu.
Quando chegou ao céu,
encontrou-se numa larguíssima estada que conduzia ao Reino dos
Gênios do Ar. Foi seguindo por ela afora, até que deu diante de si
com um fortíssimo palácio. Entrou, e qual o seu espanto ao deparar
com a princesa Ileana!
Ela mal pôde acreditar
no que via, e nem teve ânimo de escutar como tinha ele conseguido
chegar ali.
— Vou lutar com o
gênio que vos tem presa e libertar-vosada
que conduzia ao Reino dos Genios a, bem presae da terro ao centenas
de toneladas, e dav.
— Ai de vós! Ides
morrer, Sucna Murga. É um gênio forte, muito forte!
— Deixai isso por
minha conta. Eu só quero saber o que é que ele come por dia.
— Ele come cinco bois
assados e cinco fornadas de pão. Bebe cinco pipas de vinho. Às
vezes, mais... E quando bate à porta é preciso que tudo esteja
pronto, a mesa posta, e a comida nem quente, nem fria.
A última palavra já
ele a não ouviu, pois soou nesse instante uma tremenda pancada no
portão do jardim que fez abalar todo o palácio.
Sucna Murga perguntou:
— Onde me posso
esconder para o poder atacar de improviso?
— Debaixo da ponte de
cobre, — respondeu Ileana. — Ele terá que atravessa-la para
entrar em casa, e aí podereis ataca-lo de improviso.
Sucna Murga escondeu-se
e breve escutou um barulho semelhante ao ribombar de dez trovões.
Era o gênio regressando.
Quando o cavalo em que
vinha montado chegou junto da ponte, empinou-se e principiou a
relinchar assustado, sem querer passar avante.
— De que tens medo? —
inquiriu o gênio.
— Tenho medo de Sucna
Murga, — respondeu o cavalo.
— Ora que tolice!
Nenhum vento trouxe ainda a esta parte do mundo um cabelo sequer da
sua cabeça.
A estas palavras, Sucna
Murga, de um salto, postou-se em frente do gênio e gritou:
— Mentes, cachorro!
Não só o meu cabelo, mas todo o meu corpo está aqui. Eu vim brigar
contigo!
Por um momento ficou o
gênio aterrado, mas em breve readquiriu o sangue frio, e perguntou:
— De que maneira
queres que briguemos? Correndo um atrás do outro, jogando a espada
ou lutando corpo a corpo?
— Das três maneiras!
— respondeu Sucna Murga.
O gênio começou a
correr, mas o cavalo, amedrontado, caiu por baixo dele. Então puxou
a espada, mas Sucna Murga arrancou-lha e quebrou-lha. Ai atracaram-se
um ao outro.
Passado um momento, o
príncipe levantou-o com força e atirou-o violentamente ao chão,
obrigando-o a ajoelhar-se. Mas o gênio pulou pegou em Sucna Murga e
fê-lo, por sua vez, ajoelhar-se no chão. Sucna Murga endireitou-se
e, segurando no pescoço do gênio, estendeu-o por terra. então,
mais do que depressa, desembainhou a espada, cortou-lhe a cabeça e
arremessou-lhe o cadáver para debaixo da ponte. Em seguida entrou
no palácio, anunciou a Ileana o seu bom êxito e, após haver
descansado algum tempo, comeu e bebeu à vontade, com grande alegria
da princesa agora para sempre liberta.
No dia imediato
continuou o seu caminho e foi ao palácio onde a princesa Diana
estava encarcerada, palácio ainda maior e mais lindo que o primeiro.
Tal como sua irmã,
Diana mal pôde acreditar no que via. Sentiu-se, contudo, um pouco
animada quando ele lhe contou que matara o carcereiro de Ileana,
irmão gêmeo do que a tinha presa o do que roubara a princesa mais
nova.
— Este, porém, que
me guarda, é bem mais forte do que o irmão e tem duas cabeças.
— Deixai isso por
minha conta. Eu só quero saber o que é que ele come por dia.
— Ele come dez bois
assados e dez fornadas de pão. Bebe dez pipas de vinho. Às vezes
mais... e quando bate à porta é preciso que tudo esteja pronto, a
mesa posta e a comida nem quente nem fria.
Ecoou nesse momento uma
horrível pancada no portão do jardim que fez estremecer a casa
inteira. Era o gênio que chegava.
— Onde posso
esconder-me para o atacar de improviso?
— Debaixo da ponte de
prata — respondeu Diana. — Ele terá que atravessa-la para
entrar em casa.
Sucna Murga
escondeu-se, e breve escutou um barulho semelhante ao retumbar de
vinte trovões. O gênio aproximou-se, mas o cavalo em que vinha
montado começou a relinchar transido de susto e não quis mais
avançar um palmo.
— De que tens medo?
— Tenho medo de Sucna
Murga.
— Ora que tolice!
Nenhuma ave trouxe, ainda um cabelo sequer da sua cabeça para esta
parte do mundo.
Ouvindo isto Sucna
Murga pulou de sob a ponte e, enfrentando o gênio, disse:
— Mentes, cachorro!
Eis não só o meu cabelo como todo o meu corpo diante de ti. aqui
estou para brigar contigo.
O gênio ficou
surpreendido um instante, mas, depois, recuperando o ânimo, indagou:
— De que maneira
queres que briguemos? Correndo um atrás do outro, jogando a espada
ou lutando corpo a corpo?
— Das três maneiras.
O gênio desatou a
correr ma só cavalo caiu morto debaixo dele. Então arrancou da
espada. Sucna Murga partiu-a. Aí pegaram a corpo a corpo. Sucna
Murga achou a luta mais difícil do que a primeira, mas ainda assim
pode forçá-lo a ajoelhar-se no chão. O gênio, porém, ergue-se e
fez pior a Sucna Murga: abaixou-o a seus pés até à cintura. Sucna
Murga viu-se atrapalhado mas não desanimou. Recobrando a energia,
atirou-se desesperadamente o adversário e estatelou-o no chão.
Rápido, sem perder um momento, sacou da espada e matou-o
cortando-lhe os pescoços. Depois atirou-lhe o cadáver para debaixo
da ponte, dirigiu-se à princesa Diana e disse, beijando-lhe a mão:
— Estais livre,
senhora!
Em seguida entrou no
palácio, comeu, bebeu e descansou durante vários dias.
Ao despedir-se da
princesa que tudo fizera por lhe ser agradável durante essa curta
permanência, declarou-lhe que ia libertar Mariana, sua noiva muito
querida.
Continuou de jornada e
encontrou, passadas algumas horas, um palácio maior e mais belo que
os outros dois. Entretanto, viu chorosa a um canto de uma sala a sua
princesinha, que pensou estar vendo num sonho quando ele a foi
cumprimentar e lhe contou as suas anteriores aventuras:
— Ah! Meu amor! Este
gênio que me guarda é muito mais forte do que os seus outros dois
irmãos e tem três cabeças.
— Não vos dê esse
cuidado. Dizei-me apenas o que é que come por dia.
— Ele come quinze
bois assados e quinze fornadas de pão. Bebe quinze pipas de vinho.
Às vezes mais... e quando bate à porta é preciso que tudo esteja
pronto, a mesa posta e a comida nem quente nem fria.
Ma acabara de proferir
estas palavras e eis que se escuta uma pancada violentíssima na
porta do jardim.
Todo o palácio tremeu.
— É o gênio.
— Onde me posso
esconder para o atacar de improviso?
— Esconde-te debaixo
da ponte de ouro?
— Sucna Murga assim
fez, e dentro em pouco ouviu um barulho semelhante a reboar de trinta
trovões. O gênio veio-se chegando, mas o cavalo deu um espantoso
relincho e aprumou-se todo tremente.
— De que tens medo?
— Tenho medo de Sucna
Murga.
— Ora que tolice!
Nenhum vento, nenhuma brisa trouxe ainda a esta parte do mundo um ´só
fio de cabelo de sua cabeça.
— Mentes, cachorro! —
disse Sucna Murga, pulando para a frente dele. Não só o meu cabelo,
mas todo o meu corpo está aqui. Vim aqui brigar contigo libertar
minha princesa.
Embora forte como era,
o gênio atemorizou-se diante do aspecto irado de Sucna Murga. Mas
recuperando em breve o sangue frio, redargüiu:
— Bem! Assim seja! de
que maneira queres tu que briguemos? Correndo um atrás do outro,
jogando a espada ou lutando corpo a corpo?
— Das três maneiras.
O gênio lançou o
cavalo a galope, mas o cavalo caiu debaixo dele. Em seguida, puxou da
espada. Sucna Murga tirou-lhe e quebrou-a. atracaram-se então corpo
a corpo.
A luta foi tremenda! Eu
estava de longe espiando. Ah! Nem me quero lembrar dos sustos que
passei naquele dia, pensando que o gênio fosse capaz de matar o meu
bom amigo Sucna Murga! Os osso de um e de outro chegavam a estalar no
furor do combate, e os olhos parece que lhes saiam das órbitas,
injetados, raiados de sangue. Depois de um quarto de hora de luta, o
gênio pegou em Sucna Murga e fê-lo vergar de joelhos, mas Sucna
Murga levantou-se depressa e fez também vergar os joelhos do gênio.
Aí o gênio, desembaraçando-se do valente mancebo, segurou-o com
força e pelo meio do corpo e ele quase tombou por terra: o seu peito
chegou a tocar no chão!
Eu arregalei os olhos,
e gritei, fora de mim:
— Coragem, Sucna
Murga!
Num instante ele
aprumou-se de novo, e desta vez foi o peito do gênio que beijo a
terra. havia em derredor tal nuvem de poeira levantada que eu mal os
podia enxergar.
— Águias amigas! —
disse por sua vez Sucna Murga. Ide molhar as vossas asas e vinde
umedecer a minha língua, pois se sair ganhando nesta luta dar-vos-ei
três cadáveres em vez de um só.
A estas palavras as
águias foram depressa molhar as asas e vieram umedecer a língua de
Sucna Murga. Assim refrescando, a sua força voltou-lhe e, com um
desesperado, último arranco, atirou o gênio por terra e cortou-lhe
as três cabeças num relance. Depois deu às águias os três corpos
dos que mataram e voltou para o palácio de Mariana, onde passou com
ela dias alegres e descanso, dias que eles desejavam não acabassem
nunca mais.
Era forçoso, todavia,
regressar à terra e entregar as três princesas ao Imperador seu
pai.
Partiu. Quando chegou
ao sítio em que estava acorrente, balançou-a e os irmãos, em
baixo, souberam por esse sinal que ele fora bem sucedido em sua
empresa.
Desceu as jovens uma
após outra, e elas, com grande espanto, em vez de caírem nos braços
dos príncipes, foram cair nos de um bando de ciganos que, há muito,
vendo aquela enorme corrente, se tinha posto de emboscada e
manietaram, minutos antes, os dois irmãos de Sucna Murga.
O chefe dos ciganos
ordenou aos seus homens que prendessem os dois príncipes numa gruta,
puxando toda a corrente para terra a fim de impedir que Sucna Murga
de descer do céu, afastou-se sozinho com as três irmãs em direção
à corte do Imperador Branco.
No caminho advertiu as
princesas:
— Se disseres a vosso
pai uma só palavra que me desminta, os dois príncipes serão
imediatamente assassinados pelos do meu bando. Se não, se ficardes
caladas, eu os porei em liberdade. Vou-me casar com a mais nova de
vocês.
— Comigo! —
replicou Mariana. Comigo? nunca!
— Nunca? Pensas
talvez que Sucna Murga há de voltar? Jamais! E se não te quiseres
casar comigo eu da mesma forma cortarei a cabeça dos dois irmãos
dele que tenho sob meu poder.
Vendo-se sozinho no
alto, sem esperança de voltar à terra, pois a corrente havia sido
tirada, Sucna Murga vagueou ao acaso por lá, desgostoso com o que
ele supunha ter sido ingratidão dos príncipes seus manos.
Finalmente, não sabendo o que fazer, visitou de novo os palácios
dos gênios onde encontrou as coroas que as três princesas aí
tinham deixado por esquecimento, e saiu tristonho a passear no campo.
Andou, andou, andou. Depois, fatigado, parou sob uma árvore enorme e
deitou-se tranquilamente a dormir.
Não dormiu, porém,
muitos minutos, pois, mal pegara no sono, um grande rumor ao longe o
despertou. Era uma nuvem escura que se aproximava relampejando pelos
lados. Ao chegar perto de Sucna Murga, saiu de dentro dela uma bruxa
de duas cabeças negra, chispando fogo pelas narinas, com os cabelos
crespos em desalinho, semelhante a um furioso demônio.
Sucna Murga não se
moveu. Fingiu que estava dormindo, mas imperceptivelmente, lançou a
mão ao punho da espada.
— Como lamento que
estejas morto, bandido! — urrou a bruxa. Eu queria vingar em ti a
morte de meus irmãos.
Ia para retirar-se;
refletindo, porém, voltou para junto do príncipe e murmurou
rangendo os dentes:
— Este miserável
talvez não esteja morto — quem sabe? Vou colar à sua boca o meu
ouvido, para ver se ele respira ou se morreu.
Era o que Sucna Murga
esperava. Num abrir e fechar de olho sacou da espada e cortou-lhe uma
das cabeças, e atirando-a ao chão, pôs-lhe um joelho no peito para
a acabar de matar.
Sentindo-se perdida,
ela implorou:
— Perdoa-me! Já
destruíste a minha família inteira e já cortasse uma das minhas
lindas cabeças. Perdoa-me!
— Perdoar-te-ei —
disse — quando me revelares o meio de eu regressar à terra
— Vai ao jardim do
meu irmão mais velho, o de três cabeças, e procura de dentro do
tanque das serpentes um crânio de cavalo que lá está. Tira-o de
longe com uma vara para que as serpentes não te mordam, e bate-lhe
sete vezes com um chicote. Logo se transformará num belo cavalo
branco. Pede-lhe o que quiseres que tudo ele fará.
Sucna Murga largou-a e
agradeceu-lhe.
Mas, em vez de se ir
embora, a bruxa, logo que se viu livre das mãos do príncipe,
virou-se num tigre e avançou ferozmente contra ele. Então Sucna
Murga puxou da espada, lutou com a fera e matou-a, decepando-lhe a
cabeça.
Foi depois ao palácio
que ela tinha indicado, tirou do tanque das serpentes o crânio de
cavalo que lá estava, deu-lhe sete vezes com um chicote e
imediatamente surgiu diante de si um cavalo muito branco e muito
lindo que lhe disse:
— Meu senhor! Eis-me
pronto a obedecer às vossas ordens. Antes de mais nada, porém,
ponde a mão na minha orelha direita e aí entrareis vestes
riquíssimas dignas de príncipe tão valoroso como sois. Tirai em
seguida, de minha orelha esquerda, uma sela e um bridão todo de
outro. Ajaezai-me cuidadosamente e montai.
— E onde me levarás?
— Fechai os olhos
logo que montardes e vereis depois.
Ele assim fez. Fechou
os olhos um instante, e logo que os abriu estava no reino de seu pai.
Perguntou, então, ao
cavalo:
— Onde se encontram
meus irmãos?
O cavalo contou-lhe
tudo o que tinha acontecido, e levou-o num momento à gruta da Pedra
Negra, onde eles se encontravam, presos à ordem do chefe dos ciganos
que roubaram as três infantas.
Sucna Murga
libertou-os, desbaratando os bandidos que os guardavam, e, montados
todos os três no cavalo mágico, partiram para o reino do Imperador
Branco. Lá, souberam que a princesa mais nova se ia casar dento de
poucos dias com um cigano, o qual afirmava ter vencido os gênios do
ar que a retinham em seu poder, bem como os que se haviam outrora
apoderado das outras princesas, igualmente conduzidas por ele à
corte do Império.
Faziam-se grandes
preparativos para a festa nupcial, e todas as ruas já estavam
belamente embandeiradas.
Como as três princesas
tinham deixado no Reino dos Gênios do Ar as suas coroas, o Imperador
lançara pregoes por toda parte oferecendo grande recompensa a quem
fosse capaz de lhes fazer três diademas iguais aos que dantes
possuíam.
Sabendo desse pregão,
Sucna Murga e os dois irmãos alugaram uma oficina de ourives,
disfarçaram-se em operários e mandaram dizer ao Imperador que
fariam trás coroas perfeitamente iguais às que as princesas tinham
dantes.
O Imperador despachou
logo um emissário à oficina com algumas barras de ouro a fim de que
fabricassem o mais rapidamente possível a coroa da princesa mais
velha.
— Volte amanhã
busca-la, — disse Sucna Murga.
Ao outro dia ele foi, e
Sucna Murga deu-lhe a coroa de Ileana que trouxera consigo do Reino
dos Gênios do Ar. Ileana pensou reconhece-la quando a pôs na
cabeça, mas logo lhe veio ao pensamento que só Sucna Murga a
poderia ter trazido do palácio do Gênio, e — e isso era
impossível, pois o cigano retirara a corrente, único meio de
descida.
No dia seguinte outro
emissário do Imperador levou mais barras de ouro para que os três
ourives fabricassem a coroa da princesa Diana.
— Volte amanhã
busca-la.
No outro dia, quando o
emissário voltou, Sucna Murga, fingindo ter terminado o trabalho
naquele momento, deu-lhe a coroa esquecida pela princesa no palácio
do gênio que aroubara.
Ela julgou
reconhece-la, mas, pensando como Ileana que jamais Sucna Murga
poderia ter regressado à terra, suspirou apenas e não disse nada.
Chegou a vez de ir o
cigano encomendar a coroa da princesa Mariana. Foi e, diante dos
ourives (que ele nem por sombra desconfiou serem os três príncipes
disfarçados) gabou-se de ter matado os gênios e de ter libertado as
princesas.
— O senhor não viu
por lá ninguém da terra?
— Ninguém.
— Nem Sucna Murga?
— Sucna Murga foi
assassinado pelos gênios. Não cheguei a tempo de o salvar. Era um
covarde e um fracalhão. Os irmãos dele também foram mortos,
coitados! Bem... deixemos estas conversas, porque eu só gosto de
falar a príncipes e reis, e não a reles oficiais de ourives como
tu. quando estará pronta a coroa de minha noiva?
— Amanhã, senhor.
O cigano voltou no dia
seguinte e levou a coroa. Mas a pôs na cabeça, a princesa Mariana
viu imediatamente que era aquele o seu diadema antigo. Deu então uma
gostosa gargalhada, toda satisfeita com a idéia de que Sucna Murga
estava por perto e que o cigano iria receber o seu pago muito em
breve.
Ora, como a princesa
Mariana jamais se rira desde que fora capturada pelo cigano, ele,
muito naturalmente, ficou espantando com semelhante gargalhada, e
perguntou-lhe:
— Por que estais
alegres?
— Porque me vou casar
a meu gosto.
O cigano ficou todo
babado, — não sabendo que com aquilo ela queria unicamente dizer
que Sucna Murga havia de chegar e então se casaria a seu gosto,
casando-se com ele.
Não se enganava.
No dia marcado para o
casamento, veio a toda a pressa um arauto anunciar ao Imperador que
estava às portas da cidade um grande rei, chegado do Reino dos
Diamantes Negros a fim de assistir às bodas da princesa.
O Imperador mandou-o
convidar para o jantar e ele foi. Deram-lhe logo à mesa o lugar de
honra, tão imponente e tão bem trajado ele vinha, montado num
soberbo cavalo cor de neve, com arreios todos recamados de ouro e
pedrarias. Ninguém reconhecera Sucna Murga a não ser Mariana, que
lhe sorrira em silêncio,, a transbordar de contentamento. Ele trazia
uma cabeleira postiça, e falava num tom de voz diferente, para que
não descobrissem.
Quando o cigano se
estava gabando de ter vencido os três gênios, Sucna Murga
atalhou-o:
— Já que você é
assim tão forte, estenda o braço e veja até onde é capaz de me
levar na palma da mão.
— Aqui estou eu que
sou capaz!
E estendendo o braço
convidou o cigano a pôr-se em pé na palma de sua mão.
O cigano assim o fez,
cuidando que ele não agüentasse, mas, com grande espanto de todos,
o suposto rei manteve o braço estendido, sem arrear. Depois segurou
fortemente o bandido pelas pernas, caminhou até a janela e atirou-o
à rua, onde ele se estatelou e morreu despedaçado.
— Bravo, Sucna Murga!
— exclamou a princesa Mariana. Bravo!
Sucna Murga tirou então
a cabeleira postiça, deu-se a conhecer aos presentes, e contou, com
aplauso e testemunho das três princesas, tudo o que se havia passado
desde que saíra a libertá-las.
Os dois irmãos, que o
esperavam em baixo, subiram nesse momento ao salão do banquete, onde
eu também me encontrava convidado pelo Imperador Branco, e abraçaram
Sucna Murga enaltecendo-lhe publicamente os feitos gloriosos.
O pai dos príncipes,
instruído, antecipadamente de tudo, tinha entrado junto com seus
dois filhos mais velhos.
A alegria dos dois
imperadores foi enorme, e houve bailes e festas publicas em ambos os
paises, durante seis meses contados.
Sucna Murga, que sempre
foi e ainda é muito meu amigo, pediu-me o ano passado que contasse a
vocês a sua história, para que vocês aprendessem também a ser
bravos, generosos, leais, e anão ter medo de coisa alguma a não
ser de praticar ações indignas. Eu, que me habituei com ele a
manter a minha palavra, prometi-lhe escrever as suas aventuras e
cumpri agora a minha palavra.
lutou
com a fera e matou-a, decepando-lhe a cabeça., chispando fogo pelas
narinas, com os cabelos c
MERECE SER LEMBRADO III -- RUMPLETISTEQUIM
RUMPLETISTEQUIM
Era uma vez um moleiro
que tinha uma filha formosíssima, inteligente e sagaz. O pai nunca
se cansava de elogiá-la a propósito de tudo o que ela sabia.
Um dia, tendo ido ao
palácio do rei, declarou mentirosamente que ela era capaz de fiar e
transformar em fios de ouro, no pequeno espaço de uma ou duas
noites, qualquer monte de palha, embora grande.
Ora, o rei andava muito
necessitado de ouro. Quando ouviu tamanha gabolice do moleiro,
ordenou-lhe que trouxesse imediatamente a filha à sua presença.
Ao estudar semelhante
ordem, o pobre moleiro arrependeu-se do que tinha dito, mas era
tarde. Teve de trazer a filha à presença do rei. O rei levou-a a um
quarto onde havia grande quantidade de palha amontoada no chão,
deu-lhe uma roca de fiar e disse:
— Toda esta palha
deverá ser transformada em fios de ouro até amanha de manhã;
quando não, mandar-te-ei enforcar.
A infeliz menina
sentou-se a um canto e principiou chorando que fazia dó. De repente,
porém, a porta do quarto abriu-se e um extravagante anãozinho
entrou, cumprimentando a sorrir:
— Bons dias, pequena!
Por que estás chorando assim?
— Ai! — respondeu a
moça. O rei mandou-me que transformasse toda esta palha em fios de
ouro e eu não sei como começar...
— O que é que tu me
darás se eu fiar tudo como o rei deseja?
— O meu colarzinho!
Dou-te o meu colarzinho que é muito bonito!
O anão aceitou,
guardou o colar e, sentando-se no chão, fiou toda a palha que estava
no quarto. E a palha ficou transformada em fios de ouro.
Alegrou-se o rei, e
grandemente se surpreendeu ao ver aquilo. Mas, ambicioso como era,
encerrou a filha do moleiro num quarto maior e mais cheio de palha,
dizendo:
— Ou me fias tudo
isto em ouro ou te mando enforcar amanhã!
A moça desatou outra
vez num grande choro, supondo que jamais poderia escapar à forca,
porém, o mesmo anãozinho abriu a porta e perguntou:
— Que me dás se eu
fizer o que o rei te mandou fazer?
— Dou-te o meu anel
de brilhante!
O anão aceitou e, como
da vez primeira, transformou toda aquela palha em fios de ouro.
O rei ficou muitíssimo
alegre ao ver tão grande riqueza, mas não se sentiu ainda
satisfeito, conduziu a filha do moleiro a outro quarto ainda maior,
todo cheio de palha até ao teto, e assim falou:
— Se transformares
toda esta palha em fios de ouro casar-me-ei contigo; se não
mandar-te-ei enforcar amanhã.
Mal o rei saiu, entrou
o anãozinho e perguntou:
— Que me darás tu,
se eu te fiar toda esta palha e a transformar em ouro?
— Nada mais possuo
que te possa dar, respondeu a moça.
— Então, promete-=me
que me darás o teu primeiro filho quando fores rainha.
A moça prometeu,
pensando consigo que era grande bobagem isso de ela chegar a ser
rainha. E o anãozinho transformou toda a palha em fios de ouro.
O rei veio na manhã do
dia seguinte e, vendo que a filha do moleiro tinha dado conta da
tarefa, casou-se com ela conforme prometera, porque palavra de rei
não volta atrás.
Daí a um ano a rainha
teve o seu primeiro filho, e ficou muito alegre, muito alegre, não
se lembrando mais da promessa que outrora tinha feito ao anãozinho
que t4res vezes a ajudara.
Mas, se ela se
esquecera , o anãozinho não. Apareceu um dia no palácio e foi ao
quarto da rainha reclamar o seu lindo bebê.
— Você me prometeu.
Tem de mo entregar!
Ela, coitada! Ficou
feito morta. E tanto chorou, tanto chorou, que o anãozinho, por fim,
condoído do seu pranto, disse:
— Dou-te três dias.
Se no fim de três dias você adivinhar como eu me chamo, consentirei
em que fique com a criança.
A rainha despachou logo
mensageiros por todos os reinos da terra e do mar, a fim de
procurarem saber todos os nomes do mundo, pois um deles seria
certamente o do anãozinho. Eu, que era um desses mensageiro,
dirigi-me ao Reino das Montanhas Brancas, montado num cavalo que à
noite voava como o vento e de dia como o pensamento.
O anãozinho veio no
dia seguinte e eu ainda não tinha chegado de volta. a rainha
perguntou-lhe se ele se chamava Timóteo, Benjamim, Jeremias,
Nicolau, e todos os nomes de que se lembrava, mas ele, a cada
pergunta, respondia apenas, secamente:
— Não. Não é esse
o meu nome!
No segundo dia eu ainda
não tinha chegado de volta. a rainha perguntou-lhe se ele se chamava
Pafúncio, Anastácio, Brederodes e todos os nomes engraçados de que
se lembrou. Ele respondia sempre:
— Não. Não é esse
o meu nome!
No dia seguinte eu
cheguei logo de manha cedo no meu cavalo que de noite andava como o
vento e de dia como o pensamento. A rainha logo me mandou chamar e
eu, curvando-me numa grande reverência, disse:
— Real Senhora! Ontem
de tarde, estando a mil milhões de léguas daqui, no Reino das
Montanhas Brancas, já desanimado, depois de dois dias de pesquisas
infrutíferas, pois não encontrara até então pessoa alguma que não
tivesse nome bastante vulgar, — enxerguei no cimo de um monte
chamado o Monte dos Feitiços, uma cabana toda coberta de palha e
guardada por duas serpentes voadoras. Aproximei-me devagarinho, para
ver, escondido, quem é, que morava ali, quando saiu de dentro dela
um anão muito extravagante, que principiou a dançar, batendo as
palmas e cantando:
Eu ganharei lindo
menino
Lindo menino ganharei;
Pois que ninguém sabe
o meu nome
E eu a ninguém nunca
direi!
Eu não me chamo
Benedito,
Nem Januário, nem
Joaquim!
Meu nome é muito mais
bonito
Meu nome é
Rumpletistequim!
Mal ouviu isto, a
rainha pulou de contente e presenteou-me como cavalo em que eu tinha
feito a maravilhas viagem, cavalo que ainda hoje possuo e que me leva
muitas vezes ao pais encantado dos gênios e das fadas.
— Você chama
Benedito?
— Não. Não é esse
o meu nome!
— Chama-se Januário?
— Não. Não é esse
o meu nome!
— Chama-se Joaquim!
— Não. Não é esse
o meu nome!
— Então como se
chama você? Será por acaso Rumpletistequim?
O anão ficou furioso!
— Foi algum
feiticeiro que te disse o meu nome. Foi! Foi um feiticeiro que te
disse o meu nome! Foi! Foi um feiticeiro que te disse o meu nome!
E bateu o pé no chão
com tanta força que rompeu o soalho e se afundou para debaixo da
terra, cheio de raiva, desesperado, rangendo os dentes.
Depois disso, nunca
mais apareceu à rainha.
MERECE SER LEMBRADO III -- O JARDINEIRO DO REI
O JARDINEIRO DO REI
Era uma vez um rei
viúvo que se tornou a casar. Tinha da primeira mulher um filho
muito querido. A nova rainha, porém, não o amava, e intentava por
todos os meios perde-lo no coração do rei. Como este a não
escutasse, ela vivia cheia de despeito, decidida a desembaraçar-se
do príncipe, fosse de que maneira fosse.
Ora, um dia em que o
rei tinha ido caçar onças na Montanha Negra, ela pegou na taça de
ouro por onde ele costuma beber, encheu-a de hidromel e pingou dentro
algumas gostas de veneno.
À noite o rei chegou
mal humorado, porque uma onça estripara o seu cavalo favorito.
Disse-lhe então a rainha, mostrando-lhe a taca de ouro sobre a mesa:
— Reparai no que fez
vosso filho ingrato. Vos que o defendeis sempre, defendê-lo-eis
também agora? Espiando pelo buraco da fechadura, eu o surpreendi
pondo veneno em vosso hidromel.
— Senhora, isso é
impossível!
— Se não me
acreditais, daí esse hidromel ao cachorro e vereis o que sucede.
— Bem, — disse o
rei. Vou fazer isso.
E misturou o hidromel
na comida do cachorro. Logo que o pobre animal começou a beber, caiu
rígido, com as quatro patas no ar, o ventre inchado — morto!
— Menti? —
perguntou a rainha.
— Ah, senhora! —
exclamou o rei ébrio de dor e de cólera. Por que vos não quis
ouvir antes?
O príncipe, em vão
protestou sua inocência. Desta vez o rei acreditou na madrasta.
— Levai-o ao mais
denso da floresta, — ordenou aos soldados — e cortai-lhe a
cabeça.
Para assegurar-se de
que a ordem seria fielmente executada, acrescentou:
— E trazei-me o seu
coração e a sua língua.
Começaram os soldados
a caminhar com o príncipe no meio deles, e atravessaram assim toda a
capital do reino. Por toda parte o povo se amontoava para o ver e lhe
beijar as mãos, pois ele era muito querido.
— Meus amigos, —
dizia o príncipe, — acreditais que sou culpado?
— Não, não! —
respondia o povo.
Naquele reino, todo o
mundo chorava.
Os soldados tinham
também o coração oprimido. Mas que podiam eles fazer? uma ordem é
uma ordem. Em vão lhes rogava o príncipe que o deixassem com vida,
garantido-lhes que ninguém saberia de coisa alguma pois ele iria
para muito longe, muito longe, e não regressaria nunca mais.
— Pobre de nós! —
respondiam eles. De muito boa vontade vos pouparíamos a vida, porém,
o rei exige que lhe levemos o vosso coração e a vossa língua. Se
não lhe obedecermos seremos enforcados.
O príncipe teve então
uma idéia:
— Apanhai um
cachorro, degolai-o em meu lugar e levai ao rei o seu coração e a
sua língua. Fazei isto por mim! Eu estou inocente. Foi de certo
minha madrasta quem, para me perder, derramou veneno na taça de ouro
de meu pai.
Os soldados, contentes
por evitar assim um crime que de antemão lhes pesava nas
consciências, seguiram o conselho do príncipe, e deixaram-no ficar
sozinho no meio da floresta, não sem lhes suplicar que jamais
voltasse à capital do reino.
— Ide tranqüilos, —
disse o príncipe. Não sofrereis nunca por me haverdes dado a
liberdade.
Quando os homens de
armas apresentaram ao rei a suposta língua e o suposto coração do
filho, ele voltou a cabeça e afastou-se sem dizer palavra.
O príncipe internou-se
pela floresta e foi andando, foi andando, até que chegou ao término
dela. Atravessou em seguida outra selva, e mais outra, — e
encontrou-se afinal em um país desconhecido. Caminhou errante por
espaços de muitos dias sem encontrar alma vivente, quando, uma
tarde, bem ao cair da noite, esbarrou com um ancião que lhe propôs
entrar ao seu serviço.
— Com muito gosto, —
disse o príncipe, pois estava cansado e cheio de fome.
O velho conduziu-o à
casa, levou-a à cavalariça, onde havia apenas uma égua, e
confiou-lhe o cuidado de a tratar.
— Penteia-lhe as
crinas, prende-a bem à manjedoura e da-lhe de comer duas vezes por
dia.
E — coisa
surpreendente! — acrescentou:
— Sobretudo, não lhe
poupes pancada. Bate-lhe com um pau sempre que possas e até ficares
cansado de bater.
Depois, apontando-lhe
um poço, a curta distância, coberto de um todo espesso, disse:
— Vês aquele poço?
— Vejo.
— Pois bem, —
advertiu-lhe o ancião, — guarda-te de espiar o que nele existe.
Arrepender-te-ás se o fizeres.
O príncipe servia
muitos anos em casa do velho. Nunca foi ver o que havia dentro do
poço. Tratava da égua, mas não lhe batia, porque gostava dos
animais. O velho, também, nunca vinha à cavalariça, —
naturalmente porque era pouco curioso. Lá de vez em quando
perguntava:
— Deste uma boa coça
na égua?
— Bati-lhe a valer.
Está com o lombo todo ensangüentado!
— Muito bem, meu
rapaz! Continua.
Um dia o ancião saiu
de viagem, e o príncipe, tendo ficado só, sentiu um desejo
irresistível de saber o que havia dentro do poço misterioso. Não
quis tirar o toldo, com receio de não saber depois coloca-lo direito
no seu lugar, o que, infalivelmente, o denunciaria. Limitou-se,
portanto, a levantar um pouco uma das extremidades da coberta e a
meter dentro do poço o dedo mindinho da mão direita. Quando retirou
a mão, — oh, surpresa! — tinha o dedo dourado. Intentou
limpa-lo, esfregou, lavou-o, mas em vão! Trabalho perdido! O dedo
ficava sempre dourado, por mais que ele o ensaboasse e raspasse.
Compreendeu então que o velho era um mago. Temendo a sua cólera,
envolveu o dedo num lenço fino.
— Assim, — pensou,
— ele não dará conta da minha desobediência.
Engano! Quando o mago
regressou e lhe viu o dedo embrulhado, soube imediatamente o que
tinha acontecido mas, fingindo que não sabia, perguntou-lhe se se
tinha machucado.
— Foi um rato que
estava num saco de aveia e me mordeu quando eu ida dar de comer à
égua.
— Um rato? Estás
certo de que foi um rato? Parece-me que o rato foste tu, que quiseste
ver o que havia no meu poço e ficaste pegado. Perdôo-te por esta
vez, mas não repitas a aventura.
Outro dia em que o mago
saíra de viagem, o príncipe, estando a limpar a cavalariça, ouviu,
com grande espanto, que a égua o chamava pelo nome. voltou-se a ela
disse-lhe:
— Nunca me bateste
porque és bom. vou recompensar-te.
— Como?
— Vai ao poço, tira
o toldo que o recobre, lava a cara na sua água e verás...
Seguiu o príncipe o
conselho, e os seus cabelos se converteram em fios de ouro, leves e
tênues como seda.
— Agora, — disse a
égua, — desata-me, pula sobre mim e fujamos!
Correram com a rapidez
do vento, — do vento minuano cuja carreira vertiginosa coisa alguma
pode deter.
O mago persegui-os, mas
não lhes pôde fazer mal, porque em poucas horas a égua transpôs a
fronteira do país, onde o poder dele terminava.
Chegaram a outro reino
distante. O príncipe desceu da égua, cujas narinas fumegavam,
deitou-se no chão e, cansado com estava por aquela correria louca,
adormeceu profundamente. Ao despertar volveu a montar na égua, que
também tinha dormido, e saiu trotando ligeiramente pela estrada.
Dentro de poucas horas chegaram à vista de um castelo, residência
do velho monarca daquele país. Então a égua tomou outra vez a
palavra e disse-lhe:
— Precisas de
arranjar modo de vida. quanto a mim a coisa é simples, vou para o
campo. Em todo lugar há erva com que me sustente. O teu caso é mais
difícil. Dirige-te ao castelo do rei. Ele tem falta de jardineiro, e
talvez tu consigas agradar-lhe. antes de mais nada, porém, envolve a
tua cabeça num pano para que ninguém suspeite que são de ouro os
teus cabelos. Além disso, finge-te de mudo.
— Por que, égua?
— Não queiras saber
por que. Segue os meus conselhos e verás.
— Compreendido.
— Bem. Agora, adeus!
Vem ver-me de quando em quando, e se te encontrares em dificuldades
pensa em mim.
Dito isto, a égua
trotou para um bosque que havia perto e o jovem seguiu caminho do
castelo. O rei gostou dele e contratou-o como jardineiro.
Este rei tinha três
filhas. E todas três se sentiram desgostosas ao ver que seu pai
havia tomado como jardineiro um homem de cabeça vendada, e mudo
ainda por cima. Achando-o muito feio, batizaram-no com o nome de
Mudo-Espanto e foram se queixar ao monarca.
— Bom, minha filhas!
Não se aflijam por causa do jardineiro. Arranjarei outro, quando
aparecer. Por agora, todavia, conservarei Mudo-Espanto.
O príncipe tratou de
fazer o serviço da melhor maneira possível! Quando não sabia
qualquer coisa ia em busca da égua, que sempre lhe dava ótimos
conselhos. Tão bem se desempenhou da sua tarefa, que dentro em breve
o rei se convenceu da excelente escolha que fizera. Nunca tivera em
seu jardim rosas tão belas e árvores tão bem tratadas como agora!
— Afinal de contas, —
disse um dia, um jardineiro não precisa de ser formoso.
E decidiu que não
tomaria outro.
Quando as princesas
encontravam Mudo-Espanto nas avenidas do parque, voltavam-lhe a
cabeça com enfado, — à exceção da mais nova, que era muito
bondosa e tomava sempre a defesa do jardineiro se as outras falavam
mal dele. As irmãs reprovavam-lhe aqueles gostos vulgares, mas ela
não fazia caso.
Um dia em que o
príncipe se julgava sozinho, tirou o pano da cabeça e começou a
pentear os seus cabelos dourados. Precisamente nessa ocasião a
princesinha mais nova, que era um tanto curiosa, estava espiando por
uma fresta do muro. Imaginai a surpresa dela quando viu serem de ouro
puro os cabelos de Mudo-Espanto! Não disse nada a ninguém, mas
tomou daí por diante, com maior afinco, a defesa do jardineiro. As
irmãs tratavam-na de louca!
Passaram-se muitos
meses. Um belo dia o rei do país declarou guerra ao da nação
vizinha. Mudo-Espanto deixou a pá e a enxada, e foi procurar a égua.
— Bons dias, égua!
— Bons dias, amigo.
Sei perfeitamente o que te traz aqui.
Havia no chão, junto
dela, uma armadura de ouro.
— Veste essa
armadura, — disse a égua ao príncipe, — monta em mim e vamos
pelejar.
O príncipe vestiu a
armadura, montou na égua, que já estava perfeitamente ajaezada, e
foi para a guerra marchando a todo galope. Quando chegou ao campo de
batalha o exército inimigo estava quase vencedor e o rei olhava
desesperadamente para os seus soldados sem ânimo, que começava a
empreender a fuga em debandada. Já os “cornetas” iam tocar a
retirada, quando Mudo-Espanto surgiu e mandou que se calassem.
Avançou sem medo contra o inimigo, precipitou-se no mais acesso da
peleja e levou os soldados à vitória. A sua coragem causava
admiração até aos próprios adversários, que em menos de uma hora
se renderam e se confessaram vencidos.
O rei, naturalmente,
ficou satisfeitíssimo e quis, depois do combate, recompensar o
esforçado guerreiro. O príncipe, porém, tinha-se apressado em
regressar ao bosque, e o monarca teve de voltar para o castelo sem
saber o nome do seu misterioso salvador.
Vestido novamente de
jardineiro, — ninguém suspeitou que fosse Mudo-Espanto o famoso
cavaleiro misterioso. Ele trabalhava de manhã à noite, nunca se
esquecendo, todavia, de mandar todas as tardes um soberbo buquê de
rosas à princesinha mais nova, que se convertera em escárnio das
irmãs e de alguns cortesãos desejosos de agradar às duas.
Pela segunda vez
estalou a guerra. O jardineiro tornou ao bosque, onde já encontrou a
égua toda ajaezada de prata.
— Bons dias, égua!
Sabes ao que venho?
— Já te esperava.
Põe em esta armadura branca, monta em mim e marcharemos.
Quando chegaram ao
local do combate a situação do rei era desesperada. Cercados por
todos os lados, os soldados batiam-se ao acaso e feriram-se uns aos
outros. Os chefes estavam decididos a render-se. A derrota era
inevitável!
Eis, porém, que
Mudo-Espanto surge na vanguarda das tropas, e avança, de espada
erguida contra o formidável exército inimigo. Reanimam-se os
soldados ao reconhecer o cavaleiro misterioso que da outra vez os
salvara, e marcham entusiasmados sob o seu comando, dispostos a
morrer ou a vencer. Em poucos minutos a sorte da batalha muda por
completo, e o adversário tem de fugir por fim.
O rei, jubiloso em
extremo, queria a todo custo agradecer a quem pela segunda vez o
salvara. Mudo-Espanto, porém, abriu caminho por entre a multidão
entusiasta que o aclamava, e foi de novo trata do seu jardim.
Contrariado pelo que
sucedera, o monarca regressou triste ao castelo, e muito tempo ficou
aborrecido por ter feito, embora involuntariamente, o feio papel de
homem ingrato.
Durante seis semanas
não se falou no reino de outra coisa senão no cavaleiro de armas
brancas. O rei, entretanto, procurava por todas as formas achar um
meio de descobrir o seu misterioso salvador. E eis o que resolveu:
Com pretexto de
festejar a vitória, organizou um grande baile ao qual todos os
súditos do reino seriam obrigados a comparecer, sob pena de terrível
castigo. As princesas também assistiriam, do balcão do castelo
real. E cada uma delas teria na mão uma pelota de ouro que, a um
sinal dado, lançariam no ar. Aquele sobre quem a pelota caísse
poderia escolher para esposa uma das três. Eram pelotas mágicas,
oferecidas ao rei por um grande feiticeiro seu amigo. Ele supunha que
o bravo cavaleiro viesse.
No dia designado para o
baile todos os súditos se juntaram no parque do palácio, que era
formidavelmente grande. Quando o rei surgiu no balcão com as três
filhas, fez-se imediatamente em todo o parque um silêncio enorme. A
um sinal do monarca a princesa mais velha arremessou a sua pelota,
que deu três voltas no ar e foi cair suavemente sobre a cabeça de
Mudo-Espanto.
— O meu jardineiro!
Resmungou o rei. Ter-me-ia enganado o feiticeiro?
— Não! Não! —
gemeu a princesa, desfazendo-se em pranto. Não quero semelhante
marido!
— Tem toda razão! —
gritaram os cortesãos indignados.
Um mocinho bobo e
pretensioso que se queria casar com ela, fazia mais barulho que
ninguém e repetia com voz de falsete:
— Tem toda razão!
Tem toda razão!
Decidiu-se repetir a
prova.
Desta vez a princesa
arremessou a pelota para o lado oposto àquele em que se encontrava o
jardineiro. A bola, porém, voltou no ar, e ia outra vez tombar-lhe
na cabeça, quando ele, abaixando-se de repente, e fez cair em cheio
sobre o nariz do mocinho gritador. A princesa regozijou-se porque ele
era o seu namorado.
A pelota da segunda
princesa caiu também na cabeça do jardineiro. O rei indignou-se, a
menina chorou, a multidão, gritou, e a prova foi repetida. Como da
vez primeira, o jardineiro abaixou-se e a bola caiu na boca de uma
fidalgo barrigudo que namorava aquela filha do rei.
Chegou a vez da
princesinha mais nova. Adiantou-se com a sua pelota e arremessou-a.
ela deu três voltas no ar e foi cair no rosto do jardineiro.
— Isso já é demais
— bradou o rei.
— Que repita! —
gritou a multidão.
— Não! — disse a
princesa. — Eu aceito o jardineiro por esposo. Sorte é sorte.
Começaram todos a
protestar, o soberano ficou roxo de cólera, mas em vão! A
princesinha manteve a sua palavra.
— Senhora! — disse
o jardineiro, aproximando-se dela. — achais-me muito feio?
— Não, Mudo-Espanto!
— Tendes vergonha de
vir a possuir um marido como eu?
— Não, Mudo-Espanto!
Anuncio-se o casamento,
com grande escândalo da corte. Para mitigar a má impressão que
daria com toda certeza o noivo-jardineiro caminhando ao lado da
princesinha na festa nupcial, decidiu o rei que as três se casassem
no mesmo dia. E esse dia finalmente chegou. Todos os convidados se
reuniram na grande sala de recepções do castelo. Eram onze horas da
manhã. Os dois primeiros noivos estavam já muito ocupados em fazer
corte às suas duas prometidas. Só o jardineiro tardava.
Procuraram-no por toda
parte e não o encontraram. Ninguém sabia o que pensar de semelhante
desaparição...
— Certamente fugiu, —
disse o rei. Talvez se tenha envergonhado à última hora.
Estava todo satisfeito
por isso. E os cortesãos também. A princesinha, — coitada!! —
com o coração cheio de angústia, não se atrevia sequer a chorar,
pois sentia pousados sobre ela os olhares escarnecedores de toda a
corte de seu pai.
Subitamente, ao dar do
meio-dia, ressoou um toque vibrante de clarim! Os convidados correram
às janelas e viram, pela avenida de palmeiras que conduzia à porta
principal do castelo, avançar, magnificamente montado, o cavaleiro
de armas brancas que duas vezes salvaram o reino.
— Oh! Meu príncipe!
Perdoai-me! Há muito tempo que eu ansiava, como rei deste país,
apresentar-vos os meus respeitos.
— Majestade! Sou o
filho de um poderoso monarca e venho buscar a minha prometida.
— Vossa prometida?
Príncipe! Que contratempo! Que infelicidade não terdes vindo alguns
dias antes! As minhas filhas já escolheram noivos. A mais nova
decidiu casar-se com o meu jardineiro, um joão-ninguém que só sabe
cavar e regar as plantas. Parece-me, porém, que ele fugiu. Se assim
foi, podeis casar-vos com ela.
— Majestade! — eu
sou o jardineiro de quem falais. Tive de esconder a minha cabeça
porque os meus cabelos são de ouro, e guarde silêncio para vos
ensinar a julgar as pessoas, não pelo que dizem, mas pelo que fazem.
— Ah! Príncipe! Se
eu soubesse...
O rei ficou deslumbrado
por ter semelhante genro, e a princesinha pulava de contente. As duas
maiores estavam muito despeitadas, e olhavam de revés, — uma para
o seu fidalgo barrigudo, outra para o seu mocinho bobo de com voz de
falsete.
As bodas foram
esplêndidas. Depois do banquete o príncipe foi à cavalariça
agradecer à égua, — disse-lhe ela — trataste-me bem quando eras
criado do feiticeiro. Paguei-te dando-te bons conselhos e
servindo-te. Achas que fui alguma vez má para contigo?
— Nunca! Nunca!
Sempre foste boa.
— Pois agora, —
príncipe, — sabes tu quem sou eu ?
— Não, égua! Não
sei.
— Sou tua madrasta.
Fui eu quem te caluniou ao rei teu pai. Na mesma noite do meu crime
fui transformada em égua e condenada a expiar as minhas faltas na
cavalariça daquele feiticeiro a quem foste servir. Só poderia ficar
livre quando te devolvesse em bem todo o mal que te causara. Terminei
por fazer-te! Tu perdoas-me, príncipe?
— Oh! Senhora! —
disse o príncipe, beijando-a.
— Se me perdoaste,
corta-me a cabeça!
— Isso nunca!
— Não deixes de me
fazer este favor. Só assim ficarei totalmente liberta.
O príncipe sacou então
a espada e cortou a cabeça da égua, que imediatamente se
transformou em nuvem e desapareceu no ar. Tinha acabado o seu
castigo.
Decorrido os tempos das
festas conduziu o príncipe a sua linda mulherzinha à corte do rei
seu pai, que ainda vivia e passava as noites lamentando a ordem cruel
que outrora havia dado. Não se imagina a alegria que ele sentiu ao
ver novamente o filho que supunha morto, e ao sabe-lo casado com a
filha de um dos grandes monarcas seus vizinhos.
Houve bailes públicos
e banquetes de regozijos durante três meses e três dias. Eu não
estive lá para assistir, mas minha avó, que esteve, contou-me que
nunca vira um casal mais bonito e festas mais suntuosas que aquelas!
MERECE SER LEMBRADO III -- O CONDOR ENCANTADO
O CONDOR ENCANTADO
Em tempos muito
remotos, quando os ratos comiam os gatos e os anões venciam os
gigantes (isto é o que diz a história e eu sei mesmo que é
verdade) — aconteceu que o Rei dos Pássaros foi a um descampado e
espalho no chão cinco alqueires de grãozinhos de milho. Depois,
tocou uma buzina, reuniu todas as aves, e disse-lhes que apanhassem o
milho espalhado e o dividissem irmãmente
entre si. Quando os pássaro escutaram o toque da buzina, vieram de
todas as partes do mundo e dividiram entre si o milho, tal como o rei
tinha ordenado.
Mas depois de o haverem
dividido (Francamente! Sei como isto sucedeu!) ficou sobrando o
grãozinho mais pequenino. Voaram todos para apanhar. Primeiro, um
exigiu-o. outro, em seguida, afirmou que lhe pertencia. Correu logo
um terceiro e gritou que o dono era ele: que fazia parte do seu
quinhão. E palavra puxa palavra, — ao fim de cinco minutos já
ninguém mais se entendia e pegaram todos furiosamente a brigar.
Tamanho barulho fizeram
e tanto brigaram, que afinal os que escaparam vivos da batalha
viram-se com as asas ou as pernas quebradas, para não se poderem rir
dos que jaziam mortos no chão. Todo aquele lugar ficou coberto de
penas, de sangue, e de aves moribundas ou sem vida.
O Condor Encantado, que
viera de além do mar e tomara parte no conflito, teve partida a asa
direita. Quando se viu assim com a asa direita partida, retirou-se
tão depressa quanto possível, voando devagar, devagar, até atingir
uma densa floresta onde as árvores eram tão grandes que nem dez
homens podiam abraçar o troco delas, e tão altas que ninguém lhes
podia avistar o cimo, ainda que tivesse seis olhos em vez de dois.
Ali pousou mansamente, sobre um dos ramos mais baixos.
Pouco tempo depois de
ele pousar, veio-se um homem aproximando com uma espingarda, e fez
pontaria para o matar.
— Olá, caçador! Não
me mate. Tira-me daqui para baixo, devagarinho, e leva-me para tua
casa até eu ficar bom quem sabe cedo ou tarde eu te prestarei bons
serviços?
Quando o caçador ouviu
o pássaro falar com voz humana, baixou a espingarda e esperou que
ele acabasse.
Depois, levantou
novamente a espingarda e mirou.
— Espera um pouco,
bom homem! baixa a espingarda! Tu deves compreender que não te estou
ameaçando. Eu sou amigo. Sou camarada!
E o pássaro foi
dizendo uma coisa atrás de outra, para o convencer a não atirar.
A terceira vez o
caçador ainda mirou, mas resolvido por fim a poupa-lo, tirou-o para
baixo e levou-o embora devagarinho, pensando:
— Quem sabe? Talvez
que este curioso pássaro me traga sorte, pois fala com voz humana.
Quando chegou à casa
pôs emplastro na asa direita do condor e experimentou uma porção
de remédios. Decorridos sete dias, pediu-lhe o pássaro que matasse
uma vaca, visto necessitar de comer alguma coisa. E comeu a vaca
inteira.
No dia seguinte voltou
a pedir-lhe que matasse outra vaca, declarando-se cheio de fome.
— Está tudo muito
bem, Condor amigo! — replicou o homem, — mas se isto for sempre
assim, fico a pedir esmola...
— Pouco importa,
disse o Condor. Eu sei o que estou fazendo. Deixa-te guiar por mim e
não te apoquentes. Pensa só que se não cumprires as minhas ordens
não te poderei valer.
— Bem, mas...
O homem lá foi
pensativo. “Escuta agora! Por quanto tempo poderei eu ir matando
vacas? Enfim, vamos ver o que sucede...”
O caso é que deu todos
os dias ao Condor uma vaca a comer, até ficar sem nenhuma.
No dia em que matou a
última rês, disse-lhe o Condor que espetasse uma vara de trinta pés
de altura no meio do chão, mas que a enterrasse apenas um bocadinho.
O homem assim fez.
Logo depois, o Condor
Encantado arrancou a vara, e agarrando-a com as unhas voou para
longe, — tão longe, tão longe que ficou a perder de vista. Quando
já não avistava, o homem — coitado! — murmurou chorando:
— Ora vejam! Tolo que
eu fui. O Condor comeu as minhas vacas e agora fugiu.
E começou coçando a
cabeça, desapontado. Enquanto estava assim coçando a cabeça e
lamentando, com sua mulher, a desgraçada sorte que tinha — ouviu
ao longe um rumor de asas. Voltou-se, e viu o Condor Encantado
baixando veloz como um relâmpago lá das alturas do céu. desceu,
desceu e arremessou a vara ao chão. Depois atirou-a para mais longe,
com a asa que estivera ferida. Então, fitando o homem, disse:
— Isto foi só para
experimentar a minha força. Agora vamos partir. Eu levo-te nas
minhas costas.
E partiram.
Quando eles já estavam
muito, muito alto, perto do Reino das Tempestades, o Condor sacudiu o
homem das costas e deixou-o cair, mas logo o tornou a segurar com as
garras. Por três vezes o tornou a apanhar, colocando-o novamente nas
costas. Depois, disse ao homem:
— Tu meteste-me igual
susto quando por três vezes me quiseste matar com a espingarda.
Paguei-te na mesma moeda!
Passando isto,
continuaram voando por bastante tempo, até que chegaram a um palácio
radiante de luz. Luz tão forte, que uma pessoa poderia mais
facilmente fitar o Sol ao meio-dia, sem pestanejar, do que olhar para
tal palácio.
O Condor Encantado
disse-lhe:
— Este é o palácio
de minha irmã, que me julga morto. Vai pedir-lhe humildemente uma
esmola. e pede-lhe também uma noz azul que está debaixo do seu
travesseiro. Quando ela te der a esmola, diz assim: Nosso Senhor vos
abençoe! que esta dádiva seja em beneficio de qualquer alma que
disso tenha necessidade. E oxalá que o Condor Encantado viva feliz
onde porventura estiver.
— Muito bem, —
conveio o homem. — Assim farei.
E lá foi.
Quando chegou ao
palácio da irmã do Condor e recebeu a esmola, disse:
— Deus vos abençoe.
possa esta esmola beneficiar qualquer alma que disso preciso. E oxalá
que o Condor Encantado viva feliz onde quer que se encontre!
— Como? Ele ainda
vive? — perguntou a irmã do Condor cheia de alegria. Se assim é,
por que me não vem ver? por onde é que ele anda?
— Creio que vem vindo
para aqui, — retrucou o homem. dai-me a noz azul que está debaixo
do vosso travesseiro, que ele vira com certeza dentro em pouco. Ele
necessita de fazer não sei o que com essa noz.
— Isso são palavras.
Nada mais. Palavras, leva-as o vento. Eu já não vejo meu irmão há
muitíssimo tempo e duvido que o torne a ver. mas mesmo que não
torne, a noz azul é que não darei.
Quando ouvir esta
recusa, o homem voltou ao lugar onde deixara o Condor e contou-lhe
tudo qual como tinha acontecido.
— Bom! — fez o
Condor. Monta nas minhas costas e vamos ao palácio do meu irmão.
Partiram novamente
voando. Ao atingirem a casa do irmão do Condor (mais bonita ainda
que a da irmã), o homem desmontou das costas do pássaro e foi, como
da vez anterior, pedir-lhe uma esmola e a noz azul que estava debaixo
do travesseiro.
— Eu já não vejo
meu irmão há muitíssimo tempo e não creia que possa tornar a
vê-lo. Mas ainda que pudesse não te ia agora dar a noz azul que
está debaixo do meu travesseiro.
Vendo o Condor
Encantado que o irmão também se negava a dar-lhe o que pedia, foi
ao palácio de sua mulher, muito mais rico e maior do que qualquer
dos primeiros.
Junto do palácio havia
um poço muito fundo. Disse o Condor ao homem:
— Vai e puxa a corda
da roldana do poço, até que ela chie. Escutarão lá dentro o
barulho e virão perguntar-te quem és. Dirás que és uma pessoa a
mando do Condor Encantado.
O homem foi, puxou a
corda, e logo a roldana chiou. Ouviu-se, então, de dentro,
noz azul que estava debaixo do travesseirontecido.
palacio. o torno uma voz de mulher perguntar:
— Quem está aí?
Olha que eu tenho um cão com unhas e dentes de aço, e se o solto
ele far-te-á em pedaços.
— Sou um pobre
mensageiro do Condor Encantado.
Quando a mulher ouviu
falar em Condor Encantado, veio imediatamente à porta, convidou-o a
entrar, e pôs a mesa e deu-lhe de comer e de beber. Depois
perguntou-lhe que notícias trazia do seu marido.
— Felizmente, trago
boas novas. Ele está bom e forte. Ficou doente uma vez, com uma asa
quebrada, mas breve sarou, e agora mandou-me aqui pedir-vos a noz
azul que está debaixo do vosso travesseiro. Ele precisa dessa noz
para qualquer coisa que eu ignoro.
— Dar-te-ei a noz
azul. Até a vida eu daria, se acaso ele precisasse dela.
E entregou a noz ao
homem, que se despediu agradecendo a bela recepção e o modo por que
tinha sido tratado, e a foi imediatamente ao Condor, todo cheio de
alegria.
Recebida a noz, o
Condor mandou o homem montar-lhe de novo nas costas, pois desejava
transporta-lo à casa. E assim partiram de jornada.
Quando chegaram perto
da casa, o homem saiu das costas do Condor, e este lhe disse:
— Toma esta noz azul
que te ofereço. Ao sentires desejos ou necessidade de recursos,
abre-a cuidadosamente com a ponta do teu canivete, e dela sairão
pássaros, bois, rebanhos de carneiros, etc. vende o que quiseres,
mata os que quiseres, e torna a colocar o resto dentro da noz,
estalando este pequeno chicote. Adeus!
Logo que o Condor
Encantado partiu, o homem pos a noz no bolso e o chicote no saco, e
seguiu descansadamente o seu caminho. Pouco tempo depois chegou a uma
linda floresta, enorme e sombria, com altas árvores e verdes matos.
Cansado como estava de ter viajado muito, sentou-se à sombra de uma
grande mangueira e adormeceu para recuperar as forças perdidas.
Pegou no sono e só acordou à tardinha, quando já era sol-posto.
Sentindo-se, então,
muito impaciente por ver o que poderia sair da pequenina noz azul,
não quis esperar até chegar à casa; tomou o canivete e abriu-a.
Que aconteceu?
Parecia que todas as
manadas e rebanhos do mundo estavam dentro da noz, pois dela saíram
animais em tal número que breve encheram aquele lugar, alastrando-se
e cobrindo completamente uma légua em derredor. Não havia somente
vacas e bois com chifres de um metro de comprido; gordos carneiros
com lã semelhante a seda; fogosos cavalos; mulas e burros; mas
também lebres, veados, corças, cabras, porcos, — toda espécie de
animais úteis para comer.
Quando o homem viu toda
esta riqueza, alegrou-se em extremo e esfregou os olhos pensando
estar ainda a dormir. Não esta. Era, pois verdade. Ei-lo rico de um
momento para o outro. Rico! Fabulosamente rico! E pôs-se a dançar
feito maluco, até que deliberou pegar no chicote e fazê-lo estalar,
a fim de recolher novamente todos os animais na noz quebrada.
Mas, para pegar numa
coisa, pé preciso encontra-la.
Olhou aqui, olhou, ali,
para cima, para baixo, por toda a parte, — porém o saco estava
vazio e o chicote havia desaparecido.
Coitado! Enquanto ele
estivera dormindo, viera um ladrão para roubar e, não lhe
encontrando dinheiro na bolsa, levara-lhe o chicote como consolação.
Que infelicidade!
E agora?
O que iria fazer agora
o pobre homem com todos aqueles animais? Conduzi-los e leva-los para
casa, não era bem pensado. Será possível levar toda aquela porção
de animais para casa? Alguns já se tinha espalhado pela floresta.
Sentou-se, então, num
tronco de árvore e, chorando desesperadamente, amaldiçoou a hora em
que havia adormecido.
Chorava ainda o
infeliz, quando desse se aproximou Tartacó, — anão de palmo e
meio de altura, com uma barba de um metro de comprimento, montado num
coelho cor de cinza e coxo de uma perna. Aproximou-se e disse-lhe:
— Bom homem! sei o
que te incomoda. Eu possa reunir todos os teus animais e mete-los na
noz quebrada. Farei isso com a condição de me dares a esperança da
tua casa.
— Como sou
desgraçado! Ninguém me deixou esperança em casa quando, há
algumas horas, parti com o Condor Encantado.
— Não te importes
com isso. Promete-me só o que te peço, e porei todos os animais
dentro da noz.
— Se assim é, —
disse o homem — aceito.
— Muito bem, —
declarou Tartacó. Estamos então de pleno acordo.
E tirando do meio da
barba um pequeno chicote, não tão grande como o dedo mindinho,
fê-lo estalar três vezes.
Logo todos os animais
entraram apressadamente para a noz. O homem, fechando-a, colocou-a no
bolso, e Tartacó deu-lhe o chicote, a fim de que o usasse quando
dele tivesse necessidade. Depois desapareceu, e o homem continuou a
jornada para casa. No caminho, perto de um poço, encontrou um jovem
muito forte com um saco às costas.
— O meu nome é
Tudor. Vou para onde meu pai me mandou. Ele deu-me ao anão Tartacó
que tem uma barba de um metro de comprimento e anda montado num
coelho coxo.
E continuou o seu
caminho.
Lembrou-se, então, o
pobre homem que, ao sair de casa, despedindo-se de sua mulher, lhe
tinha ela prometido uma criança. provavelmente nascera essa criança
depois que ele partira.
Ah! Era então o seu
filho, a sua esperança, a vida da sua vida que Tartacó lhe tinha
levado! E chorou com amargura.
Também, quem lhe diria
que a sua viagem fora tão longa? Parece que partira a algumas horas
apenas, e já lá iam mais de quinze anos.
Tristemente, com o
coração magoado, foi o bom homem para casa, onde sua mulher o
esperava tão desolada e tão aflita como ele.
Tudor andou um ano e um
dia antes de chegar à casa de Tartacó. O anão mostrou-lhe quais
eram os seus deveres, e como o rapaz era hábil e forte, depressa
aprendeu. Tartacó ganhou-lhe amor e tratava-o muito bem, fazendo
tudo para lhe agradar.
Ora, perto do reino de
Tartacó havia o estado de Drago, rei feiticeiro, que tinha uma filha
de olhos pretos e brilhantes, boca
pequena, faces rosadas, e bonita como ninguém. Não se
parecia nada com o pai. Certamente
a mãe fora boa
criatura. Mas pouco nos importa o que a mãe tenha sido; para nós é
suficiente saber que Tudor se enamorou dela, e tão profundamente
que, quando não via, sentia-se completamente perdido.
A moça, rodeada como
estava de todas as espécies de horríveis duendes e feiticeiros, tão
feios como é possível imaginar-se, — enamorou-se também de
Tudor. Sabendo, porém, que o velho Drago não consentiria nunca no
casamento, decidiram fugir e, certa noite, Tudor montou num cavalo
que Tartacó lhe dera e abriu caminho com a moça na garupa.
Logo de manhã cedo, a
velha mãe de Drago sentiu que eles tinham desaparecido, e mandou o
filho rapidamente em sua perseguição. Quando ele os estava quase
alcançando, a moça (que sabia perfeitamente todas as artes
mágicas), notou que qualquer coisa de mau se passava e mandou o moço
olhar para traz e dizer o que via. Depois de ter voltado a cabeça,
Tudor gritou:
— Vem aí um corvo
preto atrás de nós!
— É o meu terrível
pai! Vou já mudar-me numa igreja e tu mudas-te num frade em pé na
minha frente.
Transformaram-se num
abrir e fechar de olhos, e o corvo preto foi voando sempre, olhando
de revés para a igreja, pois nenhum feiticeiro pode passar por uma
igreja e olhar para ela direito. Depois de ter voado um pouco mais,
perdeu-os de vista e tornou para casa. Tudor e a moça voltaram então
à forma humana e continuaram a jornada.
Quando Drago chegou à
casa e disse à mãe não haver encontrado vestígios do par fugido,
tendo visto somente uma pequena igreja e um padre, — a velha
deu-lhe tal murro nos ouvidos que os miolos sacudiram dentro da
cabeça.
Eu sei que isto foi
assim, porque entre feiticeiros as mulheres são piores do que os
homens, e quando estão de mau humor nenhum valente pode com elas.
— O que tu viste eram
eles mesmo. Tu nunca fazes nada de jeito! Levanta-te, corre atrás
deles e agarra-os. Por que esperas? Trá-los cá, e eu lhe s
ensinarei o que é fugir.
Drago voltou a
persegui-los. ao chegar perto deles, a moça disse outra vez a Tudor:
— Olha agora para
trás e vê o que vem.
— Vem uma galha preta
ardente!
— Muda-te já num
guarda floresta e eu em floresta!
O mágico passou
novamente por eles, e não soube que o guarda da floresta e a própria
floresta eram o moço e a moça. Drago não compreendia tão bem
estas coisas como sua mãe. Voltou para casa sem sucesso.
Quando a velha bruxa o
escutou, ficou tão furiosa que lhe cuspiu no rosto. Depois,
embrulhou-se na sua grande capa negra, montou num cabo de vassoura,
bateu nele três vezes com uma pena de galo preto, e imediatamente
voou trinta léguas, — aproximando-se muito dos fugitivos.
Vendo a moça que a avó
(cuja capacidade e esperteza ela conhecia) voava em sua perseguição
ficou deveras um tanto amedrontada. Mas, depois de pensar um momento,
transformou-se num lago com três pés de lodo no fundo e o moço
transformou-se num pato nadando à tona d’água.
Quando a bruxa deu com
o logo e o pato, logo soube que um era a moça e o outro o moço. O
pato mantinha-se no meio do lago. Ela não o podia apanhar, porque a
moça recomendara a Tudor que de forma alguma chegasse à beira do
lago, ou abrisse os olhos, — até a velha desaparecer.
A mãe de Drago tentou
seduzir o rapaz por muitas maneiras, ofereceu-lhe bons biscoitos para
comer, belos pratos para esgaravatar, mas o pato não se moveu:
conservou-se sempre no seu lugar.
Percebendo que não
havia meio de induzir o pato a vir à beira do lago, — o que foi
que ela fez, o diabo da velha? Como bruxa malvada que era, virou-se
repentinamente para ele, e disse:
— Vou matar agora
mesma a minha neta. Olha!
Tudor, aflito, pensou
que fosse verdade e abriu os olhos. Foi o que ela quis, arrancou-lhos
e, deixando-o cego, fugiu.
Assim que ela se foi,
Tudor e a moça voltaram à forma humana.
— E agora? —
perguntou a moça. Eu bem te recomendei que não abrisse os olhos. Tu
deixaste-te enganar pela velha e por causa disso estás cego.
Contudo, espero em breve remediar esse mal. Fica um instante aqui.
Vou tentar apoderar-me dos teus olhos.
A mãe de Drago,
cansada da jornada, tinha-se deitado na floresta à sombra das
árvores e caído em sono profundo. Chegando ali e vendo-a dormir, a
moça abriu a mão, onde ela conservava os olhos de Tudor, tirou-lhos
e colocou no seu lugar dois pedaços de lodo. Quando a velha acordo,
pos as pernas por cima dos ombros e vi-se embora voando no seu cabo
de vassoura. Ao entrar em casa, o filho perguntou-lhe:
— Então o que é que
você fez? Que sucesso teve?
— Eu não sou uma
idiota como tu. Arranquei os olhos do rapaz. Aqui estão eles.
Repara!
Mas ao abrir a mão
para mostrar os olhos, viu que trouxera apenas duas bolas de lama.
— É esse o sucesso
de que você se ufana? — escarneceu o filho.
A feiticeira ficou de
boca aberta. Drago, então, avançou para ela e deu-lhe tal murro nos
ouvidos que os olhos lhe saltaram do rosto e caíram no fogo. Ela
ficou cega e estourou de raiva. Pum!
Quando o jovem para se
achou livre e salvo de tantas perseguições, encaminhou-se para a
casa do pai de Tudor, o qual ainda conservava a noz azul que o Condor
Encantado lhe dera. Tornara-se com a sua posse o homem mais rico do
país, e vivia com a mulher num grande palácio. A única tristeza
dos dois era a falta do filho querido.
Tudor casou-se com a
moça. Todos a acharam lindíssima e de coração bondoso. Tiveram
muitos filhos, e foram felizes até morrer.
Houve grandes festas e
muita alegria.
Sabem vocês quem veio
ao casamento deles?
Tartacó montando no
seu coelho coxo e cor de cinza.
O presente que ofereceu
foi o melhor de todos, pois o anão era inimigo de Drago e tinha
grande amizade a Tudor. Deu-lhe um palácio mais lindo e mais
suntuoso do que o palácio do rei. E ficou sendo uma das suas visitas
mais assíduas. Quem diria que Tartacó era tão generoso?
E o Condor Encantado? O
que foi feito dele?
Depois de deixar o
homem que o tinha salvo e aquém tornara tão rico dando-lhe a noz da
abundancia, — voou pelo mundo afora durante muito tempo a fim de
conhecer todas as terras. Passados alguns meses, sentindo-se cheio de
saudades de sua mulher, resolveu fazer-lhe uma surpresa e ir
visita-la. Bateu as asas e foi.
Ora, a mulher do Condor
costumava estar sempre à janela do palácio o dia inteiro, esperando
que em qualquer ocasião ele voltasse. Assim, quando o enxergou ao
longe, estendeu-lhe os braços, louca de alegria. E ao vê-lo perto
de si, beijou-o muito comovida, chorando de tanta satisfação.
Logo, porém, ao
dar-lhe o primeiro abraço, o Condor voltou à forma humana e
transformou-se num príncipe lindíssimo, tal como era antes de ser
encantado. É que nesse momento morria no reino de Drago a velha
bruxa, e quebrava-se o encanto que ela lhe pusera e que o trouxera
longos anos feito pássaro. A mãe de Drago quisera-se casar outrora
com o formoso príncipe, apesar de ter então duzentos anos e ele
apenas quinze. O príncipe negara-se (está claro) e ela, por
vingança, transformara-o em Condor no dia do seu casamento com a
filha do rei do País das Esmeraldas.
O regozijo no palácio
foi enorme. Houve festa um ano inteiro. O irmão e a irmã do
príncipe vieram pedir-lhe desculpa de não haver outrora dado a noz
azul ao mensageiro que ele lhes mandara. O príncipe perdoou, e
ficaram todos muito amigos.
Assinar:
Postagens (Atom)